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quinta-feira, 19 de julho de 2012

Índia - parte 13

Cinema

Na Índia, não deixe de ir ao cinema. Os filmes são em hindi mas dá pra se divertir. Fomos uma vez em Jaipur. O cinema, para umas 2000 pessoas fora construído com muito luxo e ainda mantinha um bom conforto. Era a tarde e no meio da semana, mas mesmo assim lotou. O filme, de nome TEZZ era de ação, pretensamente hollywoodiano. A trama se passa toda na Inglaterra e envolve terrorismo, dramas familiares, efeitos especiais nada especiais. Melhor seria dizer “efeitos comuns”. Só com uma imaginação muito inocente se pode engolir um roteiro desses. Imagine uma Londres onde o chefe do sistema de trens e o chefe de polícia são indianos. Os ingleses, branquinhos como eles só, falam hindi. Tem mais um monte de lorotas. No meio do filme a trama do nada é interrompida por um espetáculo musical totalmente fora do enredo. Não há beijos e muito menos sexo. Tudo vai indo, vai indo e as luzes na sala se acendem: é o intervalo, ora! Todos vão ao banheiro, compram mais pipocas, voltam e continua o filme. As pessoas interagem com os atores, batem palmas, enfim, é a Índia.

Não adianta tentar. Os filmes americanos são lançados na Índia, mas não fazem nem cócegas no mercado cinematográfico local. Eles gostam é do cinema deles mesmo. E estão ficando mais organizados. Há uns 10 anos eu li em algum lugar que, para evitar bagunça, os atores eram registrados em um banco de dados e os trabalhos que desenvolviam eram registrados servia também como um currículo. Uma regra era bastante clara: cada ator podia participar da gravação de, no máximo 14 filmes ao mesmo tempo.

Miséria e o romantismo

A Índia é um país tão complexo que é difícil entender como continua funcionando, como que ainda não entrou em colapso. Qualquer tentativa de explicação é pura presunção. A complexidade é pesada. A beleza ali arde, é sentida, tem cheiro e som. É preciso ser filtrada, mas a presença é forte. Meu olhar cartesiano se mostrou insuficiente para definir aquilo. Há quem diga que com o tempo passa se a gostar do país e com um pouco mais se apaixona. Não nos demos tempo para uma coisa nem outra. Minha resposta na lata seria “não gostei”. Porém foi a experiência mais forte até este ponto da viagem. A Índia nunca mais deixou de ser assunto. Quando encontramos com outros viajantes que lá estiveram, rapidamente o país se torna o centro da proza.

A miséria me incomoda. E romantizar o assunto para mim é quase um crime. Se aceitar ratos passando por seus pés é parte da cultura, não quer dizer que isto não possa ou não deva ser mudado. A violência parece já fazer parte da cultura brasileira e mesmo assim não acho que por isso devemos aceitá-la. Então discordo de quase todos os depoimentos que tentam romantizar a miséria indiana (ou qualquer outra) tentando mostrar que é aceitável porque é cultural. Me recuso a aceitar isto. Neste país ainda se “fabrica” eunucos. Pais pagam para mutilar seus filhos para conseguir alguma vantagem com isto no futuro. É proibido, mas e daí? Já existem organizações e associações de eunucos pelo país. Este tipo de coisa é uma das partes da miséria que não se pode aceitar ou alimentar.

A organização do trabalho passou longe dali. Um hotel pequeno, com capacidade para uns 6 hóspedes (home stay) costuma ter 4 ou 5 funcionários. Camareiros entram dois a dois nos quartos para limpá-lo, demoram horrores e quando saem o serviço ainda está por ser feito. Vimos obras caseiras, os puxadinhos, ocupando mais de 10 trabalhadores. Coisa que no Brasil, que nem é lá essas coisas em termos de produtividade se faz com 2 pessoas. E o pior: é muito comum as mulheres em uma obra fazerem o serviço mais pesado. Mas não me arrisco a tentar apontar algum caminho neste sentido. Uma mudança radical nas relações de trabalho e de produção poderia talvez levar á morte milhões de pessoas. Tenho sempre que me lembrar de que o sistema atual alimenta (mal, é verdade) 1,2 bilhões de pessoas. Mas nem todos precisam passar por essas magrelas. A casa mais cara do mundo está na Índia. Custou ao seu dono cerca de 1,7 bilhões de reais. Tem 27 andares e a conta de luz mensal supera 200 mil dólares.

Recomendo muito a quem sonha em conhecer a Índia que vá lá. A emoção é garantida. É preciso cuidados excepcionais para não adoecer, mas a emoção te encontrará rápido. E é isto o que busca um viajante. As coisas lá são baratas se você se dispõe a fazer por você mesmo. Mas o estresse é certo. Há o turista que chega de avião, a agência o coloca em um ônibus com ar condicionado até o hotel de luxo e os guias levam direto ao ponto turístico, também de ônibus. Esta pessoa verá a pobreza de dentro do veículo. Mas não sentirá cheiros e nem terá grande contato com o barulho e a desordem. Não cansará tanto, mas este contato não é muito autêntico. Mesmo assim vale.

Pode-se também, através de agências, alugar carro com motorista que fale inglês. Fica caro mas pode valer muito a pena. Talvez uma viagem neste estilo seja a mais proveitosa. Mas viajar como mochileiro independente, como fizemos não nos pareceu a melhor escolha. Vimos muito. Mas cansou a beleza.

Despedida

E ao fim de 12 dias que nos pareceram 1 ano, estávamos dentro de um avião para o Nepal. A decolagem foi o melhor que aconteceu neste período.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Índia - parte 12

Retorno a Délhi

Retornamos a Délhi para finalizar a Índia. Continuava quente e empoeirada. Ficamos em outro hotel, que dessa vez conseguimos chegar sem nos envolver com taxista nenhum. Fomos de metrô.

Ainda assim resolvemos visitar Mesquita da Jama Masjid, a maior da Índia. Salvo eu esteja redondamente enganado, mesquitas geralmente não são muito acessíveis a não-islâmicos. Então, como esta se abria para visitações, decidimos conhecê-la. Apesar de ser realmente grande, dá medo de não encontrá-la, devido à bagunça do entorno. Não sei de já registrei, mas as ruas da Índia geralmente não possuem identificação, mesmo na capital. Mas, enfim, chegamos. Esperamos dar o horário de visitas, compramos os tickets e fomos.

Renilza teve que usar uma manta azul, parecida com a de Merlin, o feiticeiro celta, para cobrir os braços, o que não a ajudou muito nas fotos. O esquema é bagunçado. Você paga pelo passeio completo, entrega o bilhete em um ponto e depois em outro ponto eles pedem o bilhete novamente, que já havia sido entregue, etc. Dá a impressão que começaram a receber visitantes ontem. Mas a gente apenas dizia que já havíamos entregado o papelzinho e tudo dava certo. Conseguimos até subir em um dos minaretes, aquelas torres finas comuns nas mesquitas.

empre havia fiéis rezando e os mesmos eram bastante preocupados com a postura dos visitantes. Se estávamos em algum lugar não permitido, nos indicavam educadamente que era para sair. A mesquita é muito bonita e imponente. E o mais legal é que se tem a nítida sensação de que está em pleno funcionamento. Falo isto porque é comum quando visito uma igreja aquilo me transmitir mais a sensação de estar em um ponto turístico do que em um templo. Enfim, saímos da mesquita e demos por encerrada nossa missão no país. Agora era só organizar a retirada.

domingo, 8 de julho de 2012

Índia - parte 11









Forte Vermelho, Agra

Logo depois do Taj Mahal resolvemos ir direto ao forte vermelho. Muito bonito também. Comparável ao Amber Fort. Mas o calor estava demais. Fritávamos ao sol. Com certeza o calor complicou as coisas para a gente na Índia, tornando tudo ainda mais difícil.

Vale a pena deixar a metade ou um dia inteiro para esta atração. Neste forte o ex-imperador Shah Jahan, após ser deposto por um dos seus filhos ficou confinado. Pelo menos pode apreciar o Taj Mahal pelo resto de sua vida. O complexo foi muito eficiente por muito tempo em cumprir o papel a que se propunha. Era uma fortaleza de dificílima invasão, construída com esmero para dificultar ao máximo as investidas dos inimigos e para facilitar a vida dos defensores. Além de eficiente o local é muito bonito e a residência do chefe era extremamente confortável, pelo menos para ele e suas dezenas de mulheres, com piscinas, poços jardins e muito mais.




Médico

Ao longo da viagem temos nos cercado de cuidados para evitar doenças. Antes do início consultamos com um infectologista e tomamos todas as vacinas possíveis. Fizemos seguro e tomamos cuidados inéditos com nossa higiene. Sempre usamos álcool em gel e repelentes de insetos. Andamos com um kit de primeiros socorros e vários remédios em nossa bagagem. Mas nunca se elimina certos riscos e a primeira mazela nos aconteceu justamente na Índia, em Agra. Renilza apresentava sintomas de infecção urinária. Então procuramos o melhor hospital da cidade. Nos disseram que era muito caro, mas não nos importamos porque temos seguro. Justiça seja feita. A limpeza era razoável e o atendimento não demorou. O médico que nos atendeu foi o dono do hospital. A consulta foi ótima. Uma longa entrevista em bom inglês, exames vários e tudo o mais. Ao se deitar para fazer o ultra som, o médico, apenas olhando a postura da Renilza a perguntou se ela frequentemente sentia dores na lombar. Bingo! Ficamos impressionados com esta e outras observações. Talvez seja influência do ayuverdismo. Fato é que algumas horas depois da consulta e exames eles já tinham os resultados e a consulta foi complementada com os devidos medicamentos. Preço total, 134 dólares.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Índia - parte 10

Taj Mahal

Já que chegamos à Índia, tínhamos que ir ao Taj Mahal. O contrário seria impensável. Saímos do hotel de manhã e fomos caminhando. Depois de uma hora andando, estávamos no parque que antecipa a chegada. Como sempre, uma multidão. Centenas de meninos jogando críquete, charretes e mais charretes de camelos, vendedores de tudo quanto é inutilidade, etc. Enfim, chegamos.

Compramos bilhetes, pegamos a fila, uma para homem e outra para mulher, a fila foi furada várias vezes, fomos revistados e estávamos dentro. Várias pessoas se benziam viradas para o complexo, ainda do lado de fora. Podia ser que apontavam para uma mesquita, o que eu mesmo duvidava, pois a mesquita estava em outra direção. Primeiro passamos por um conjunto de prédios avermelhados. Beleza incontestável. Enfim, passa-se por um imenso portão e se avista o mausoléu, que é o prédio principal. Mesmo estando um pouco sucateado com jardins em frangalhos e vários poços, que são partes importantes do complexo, secos, ficamos impressionados. É algo realmente bonito, que não deixa margem para se imaginar algo mais belo. Cada pedra do revestimento, cada escada, pórtico, parece que tudo recebeu a atenção especial de mestres da arte de esculpir o mármore.

Porém, quando vemos palácio como um todo, é também uma obra prima no meio daquela paisagem. Lá dentro, em um salão, dentro de mais uma cerca de mármore finamente entalhado está o túmulo de Aryumand Banu Bengam, esposa favorita do Imperador Shah Jahan, que morreu ao dar a luz seu décimo quarto filho. Esta obra já foi apontada como a maior prova de amor da história. Levou 22 anos para ser construída, entre 1630 e 1652. Mais de 20 mil pessoas trabalharam no empreendimento. Há lendas, altamente factíveis, que os melhores artesão eram executados após concluírem algum trabalho, para não refazer o trabalho para um rei concorrente. Após sua morte, o corpo do ex-imperador foi sepultado ao lado da esposa e constitui a única parte que “fere” a simetria perfeita de tudo que ali foi construído.

O preço para visitantes estrangeiros era cerca de 15 dólares. Para indianos, menos de meio dólar. Gostamos disso.

Várias paredes do interior do mausoléu estão enegrecidas em uma faixa cerca de 1,5 metros. Isto aconteceu porque vários visitantes indianos fazem todo o trajeto passando a mão na parede se benzendo e deixando para trás uma camada de lipídio e poeira que fazem o papel de uma graxa. O diálogo a seguir com certeza já ocorreu alguma vez: Ué! Mas por que? Ora, algo tão bonito só poderia ser sagrado! Então as pessoas vão lá e rezam e se benzem. Mesmo aquilo sendo apenas um mausoléu de uma pessoa que não fez nada demais; apenas foi amada por um louco, como um louco.

Normalmente isso não acontece. Por exemplo: eu amo Pretinha como um louco. Mas eu não sou louco. Pelo contrário. Eu sou normal! Então se ela morrer antes de mim não vou construir pra ela um Taj Mahal.

Já bati nessa tecla algumas vezes e sei que estou sendo repetitivo. Mas a Índia me mostrou isto. E aprendi assim a ver o quanto do nosso tempo e dos nossos recursos gastamos construindo coisas que não tem utilidade alguma. Para isso trabalhamos feito loucos e nos privamos de aproveitar nosso escasso tempo com as pessoas que realmente amamos e deixamos de fazer o que realmente queremos e gostamos.

Agra é uma região seca. É cortada pelo rio Yamuna, mas os arredores é árido. Sentado em um degrau de mármore, olhando aquela paisagem gasta, aquele povo sofrido, tentei calcular quantos quilômetros de canais seria possível construir ao longo de 22 anos usando 20 mil trabalhadores, seus elefantes cavalos e camelos. Depois, tentei fazer as contas de qual a área que seria possível ser irrigada com esta água e quantas famílias se beneficiariam disto. Depois, tentaria capitalizar isto ao longo do tempo, quase 400 anos. Dezenas de gerações de milhares de famílias de Indianos seriam poupadas da miséria extrema se um megalomaníaco tivesse deixado de pensar em seu próprio umbigo e ter feito o que era seu verdadeiro dever como governante, cuidar de seu povo, e não explorá-lo para realizar suas loucuras. Isso vale para o Taj Mahal bem como para dezenas de obras na Índia e ao redor do mundo. E vale para muito do que se faz hoje em dia.

No momento em que este texto era escrito, a estimativa dos custos das obras da Copa de 2014 no Brasil eram de mais de 11 bilhões de reais. Já o salário médio de um professor primário no Brasil é o terceiro mais baixo de uma lista de 38 países desenvolvidos e em desenvolvimentos, segundo UNESCO. Pagamos metade do que se paga no Uruguai. Em BH uma faxineira diarista facilmente pode ganhar mais do que uma professora do Estado trabalhando 40 horas. Afinal, quem são os loucos?


Índia - parte 9


Sacratização

O Hinduísmo é uma religião politeísta cujo panteão conta com um número de deuses próximo de 35000. Um rio, uma montanha, um bicho, etc, tudo pode ser um deus. Os principais, com certeza são Shiva, Brahma e Visnu. Geralmente possuem histórias bastantes complexas e bonitas. Configurações politeístas costumam ser bastante tolerantes. É inimaginável para pessoas de fé deste tipo conceberem a hipótese de iniciar uma guerra porque o outro povo possui uma fé distinta. E não fazer guerra é muito civilizado. Mas uma coisa que talvez seja uma tendência de povos politeístas é fazer de qualquer coisa algo sagrado, sem que se questione. Já é sabido que a Índia tem uma indústria cinematográfica muito efervescente e é comum a produção de filmes sobre deuses. Sabe o que acontece frequentemente neste tipo de filme? O ator que faz o papel do deus em questão se torna também uma espécie de divindade. Muitas pessoas não diferem a realidade da ficção.

sábado, 30 de junho de 2012

Índia - parte 8

Agra

Como já disse, se mover na Índia não é nada trivial. Seja ir a pé a uma estação a algumas centenas de metros ou pegar um trem para outra cidade, saber que teríamos que nos movimentar causava sempre uma tensão. Nos preparávamos como se estivéssemos indo para uma guerra. A ida para Agra tinha um agravante. Suspeitávamos que Renilza estava com infecção urinária. Então, fizemos contato por e-mail com o dono da home stay onde ficaríamos e informamos que precisaríamos de uma consulta médica no dia seguinte e também combinamos que ele providenciaria transporte para a gente da estação até sua casa. Ele confirmou e pensamos que desse jeito, nada podia dar errado. Fomos com fé. Relembrando, Délhi é feio para danar. Jaipur é feio pra dedel. Mas Agra á a cidade do Taj Mahal, uma das 7 maravilhas modernas, é a Torre Eifel, o Cristo Redentor, o Coliseu da Índia. Com certeza esperávamos em Agra ter esperanças de que a Índia tinha salvação.

Chegamos por volta de 22h. Infelizmente, pela janela do trem entrando na cidade, já vimos que Agra não seria muito diferente de Délhi ou Jaipur. Muita sujeira, miséria e bagunça. Mas a esperança ainda existia. Saímos do trem e fomos para a porta da estação nos encontrar com o nosso condutor. Neste momento, um motorista de tuk-tuk se oferece para nos levar. Agradecemos, mas tínhamos transporte (que ainda não vimos). Ele disse que o transporte não viria, porque neste caso ele teria que estar nos esperando. Resolvemos andar um pouco, para nos expor. Nada. Mas o curioso é que nenhum outro condutor nos abordava. Apenas o cara que apareceu primeiro nos seguia, insistindo para irmos com ele. O cara era muito chato. Resolvemos voltar pra estação e esperar mais um pouco. O cara, em vez de ir tocar sua vida, buscar por outros clientes, ficou parado na nossa frente, nos vigiando, querendo ver nosso mapa, a tela do computador, enfim, o cúmulo da falta de noção de que não estava agradando. E insistia, insistia, insistia. Matamos a charada. Nenhum outro condutor se oferecia porque eles já haviam acertado provavelmente que nós seríamos dele. E ele não ia embora. Decidimos que se fôssemos pagar para alguém nos levar, não seria para ele.

E nada do nosso transporte chegar... a essa altura, estudamos nosso mapa, tirado do Google Maps e vimos que poderíamos tentar ir a pé. Aí a porca torceu o rabo. Depois de uns 500 metros o cara do tuk-tuk finalmente desistiu de nos seguir. Não consigo descrever o quanto esta cidade é horrível. As cenas das ruas cheias de mendigos, ratos, pessoas muito sujas e desnutridas nos encarando, esgotos a céu aberto, tudo isso envolto em uma nuvem de poeira e com uma iluminação muito ruim. A mente começou a criar e imaginei Michael Jackson parcialmente transformado com seus amigos lobisomens aparecendo em nossa frente, mexendo os ombros ao som de Thriller. Aliás, Hollywood economizaria uma nota com cenários se passasse a fazer seus filmes de terror nas noites das cidades da Índia (estranho o cinema indiano não explorar filmes de terror). Nesse momento desisti de ficar comparando a feiura das cidades deste país. A capacidade de superação parecia infinita neste quesito. Bom, fomos seguindo nosso mapa e nada. Pergunta aqui, ali, mais tuk-tuk fechando nossa passagem para nos forçar a contratá-los e nada. Tentamos até outros hotéis. Por fim, mostramos o endereço para um condutor e fechamos um preço. O endereço não tinha nada a ver com o local apontado pelo Google. Brincadeira! Nem o Google conseguiu mapear direito Agra! Enfim, chegamos ao nosso hotel e tivemos que nos segurar com força para não brigarmos com o dono, que não cumprira seu compromisso de nos buscar.

Hotel de Agra

Esta home stay era boazinha. Razoavelmente limpa, espaçosa, etc. Tinha uns 3 quartos e um corpo de funcionários de 4 ou cinco pessoas. No Vietnam, um estabelecimento desses era mantido em estado muito melhor com apenas a mão de obra do casal de donos. Mas tinha alguns problemas. De noite, lá pelas 23h a internet caía. Procurávamos a administração e eles diziam que era porque desligaram o computador deles. Então a gente tinha que insistir, dizendo que precisávamos ligar para o Brasil e coisa e tal. O carinha respondia que estava desligado. E nós insistíamos, ameaçávamos ir embora no dia seguinte e finalmente ligavam o computador. Toda noite era assim. Pedimos 4 diárias. No último dia, como nosso trem partiria a noite contratamos mais meia diária. Mas por isso eles queriam cobrar pelo café da manhã, pois no caso de meia diária não constava este serviço. Tentei explicar que o desjejum já estava incluído na diária anterior, mas mesmo assim não adiantou. Por fim não entendíamos se era má fé ou burrice. Acho que era a segunda opção, pois acabaram nos cobrando uma diária a menos, mesmo comigo alertando para o erro nas contas. Por fim aceitei pagar menos, para compensar em parte os transtornos da chegada e da internet. A saber, o nome do hotel é Say Home Stay.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Índia - parte 7

Amber Fort - Jaipur

Uma das principais atrações da Índia é o Amber Fort. Construído no século XVI, o complexo envolve dezenas de quilômetros de muralhas que cortam montanhas e montanhas. Contem um imenso palácio, com praça, alojamentos e a residência real. À época de seu apogeu, era tão bonito que teria motivado guerras onde o inimigo queria destruí-lo porque não tolerava que um rei do Rajastão pudesse ter algo tão belo, ou algo assim. É bonito mesmo. Chegamos lá num tuk-tuk e, por não entendermos bem o esquema do local, fomos subindo uma ruela onde passavam os visitantes de iam de carro. Afinal, chegamos. Mas tinha um caminho mais curto e também poderíamos ter subido de elefante, pagando por isso, é claro. O dia estava claríssimo e isto realçou a beleza do lugar. Praças, salões, paisagens, etc. No meio da secura do deserto os projetistas conseguiram fazer um lago ao redor do palácio, que compõe a defesa do mesmo contra eventuais invasores.

A gente fica embasbacado. E como não podíamos deixar de perceber, foi mais uma daquelas obras caríssimas e de luxo extremo feita à base da exploração de uma população paupérrima, ao que a índia afinal parece ter se acostumado. O local está muito bem cuidado e se pode usar audio guide. Lá dentro vimos um “encantador de cobras”. Acredito que todos que vão à Índia sabem que as cobras usadas nessas apresentações foram mutiladas e tiveram suas glândulas produtoras de veneno extraídas. Mesmo assim (ou por isso mesmo) havia fila de turistas para poderem ser fotografados fazendo gracinhas com a cobra.



Grande Palácio e Hawa Mahal

Estes dois monumentos da arquitetura indiana preencheram outro dia de nossa estada em Jaipur. Tudo muito bonito. Como sempre, muito luxo no meio de muita pobreza. Faz parte... A parte de Jaipur contida dentro da muralha, a cidade antiga, é praticamente toda cor de rosa. Bem, para mim estava mais para o alaranjado, mas tudo bem.

Vendo as fotos alguns dias depois da visita fiquei impressionado com a beleza do lugar. Mesmo as fotografias tiradas para registrar as mazelas mostravam uma cidade bonita. Que coisa! Está aí algo legal da Índia. O país é fotogênico. A pele morena das pessoas, seus olhos grandes e traços finos os fazem parecer bonitos nas fotos, mesmo que a olhos nus se perceba os dentes estragados e o ressecado da pele. As roupas coloridas, os turbantes e outros acessórios largamente usados em fotos ficam bem, o que nem sempre é verdade quando se está no meio da multidão, já que o calor extremo e o excesso de roupas torna aquilo tudo muito mais feio e fedorento que na foto.

Mas se você conseguir imaginar aquela beleza toda como moldura para um povo saudável e próspero, como espero que algum dia isso tenha sido realidade, é possível ver muita beleza em Jaipur e em vários outros lugares da Índia.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Índia - parte 6


Jaipur

Quando saímos de Délhi ficamos um pouco aliviados. Esperávamos que aquela era a cidade mais feia do mundo e dali pra frente tudo seria melhor. Mas Jaipur não fica muito para trás neste quesito. Leva alguma vantagem por ser menor, mas a pobreza é a mesma. Ratos, pombos, mendigos, enfim, a pobreza parece ser bem democratizada na Índia. Acredito que nenhuma cidade fica para trás. Mas a gente ia passear de um jeito ou de outro.

Este ânimo foi se desfazendo ao longo do primeiro dia. Só falávamos em encurtar o tempo da Índia. Nesta primeira noite em Jaipur, quando voltávamos do jantar, vimos uma agitação em uma rua, uns 200 metros de nós. Música, luzes (lâmpadas ligadas em um gerador num carrinho), cavalo, etc. Fomos ver. Era um casamento indiano. Encontramos a comitiva que levava o noivo. Fomos chegando, tirando fotos de todos dançando, do noivo, vestido de marajá montado no cavalo branco, etc, quando uma, 2, 8 mãos me puxaram. Era para eu entrar no bolo e dançar. Agradeci, falei que não, que isso..., tentei pular um muro, mas me agarraram, com Renilza ajudando. Então entrei no bolo e comecei a dançar, igual ao Seu Coisinha. Um sucesso. Depois puxaram Renilza. Ela fez bonito. Aí a gente começou a gostar da viagem. Os meninos do casamento vinham nos cumprimentar, muito legal. Queriam que eu dançasse de novo, mas dessa vez não fui. Queríamos continuar ali, mas já chamávamos mais atenção que o noivo, então fomos embora.

domingo, 24 de junho de 2012

Índia - parte 5

Trem para Jaipur

Depois de vencer uma luta enorme contra o sistema invisível que trabalha para que você nunca consiga comprar uma passagem de trem que não seja através de uma agência, nos preparamos e fomos para a estação. É claro que estávamos com medo, pois passaríamos a noite em um trem indiano e até ali a Índia era só decepção. O país é tão bagunçado que para voos internacionais as empresas aéreas pedem que o cliente se apresente para o check in 4 horas antes (no resto do mundo este tempo é de 2 horas). Então decidimos aplicar a mesma regra para o trem. Chegamos à estação 4 horas antes do embarque. Foi bom que tivemos tempo de verificar tudo e encontrar em um mural escrito á mão o número de nosso transporte no meio de mais uns 50. Fomos preparados para dar tudo errado, mas tudo deu certo.

Ficamos na classe 2AC. Mas nosso vagão era dividido em biombos com 2 beliches cada. Dois velhinhos dividiam o quarto com a gente. Além do fato de um cara ter passado a mão na Renilza e sair correndo, mais nada de anormal aconteceu. Nas 4 horas que ficamos esperando, vimos cenas interessantes. Mendigos passam de um lado para o outro o tempo todo e quando um trem para eles vão entrando, com seus bebês no colo. Numa dessas um guarda entrou no vagão e expulsou a socos uma mulher com uma criança de colo. Chocante. Minutos depois, com o policial distante, lá estava a mulher, mais uma vez dentro do trem. Na classe mais econômica o veículo se desloca com pessoas dependuradas pelas portas. Não há limite de lotação. As empresas vendem bilhetes enquanto há procura. As pessoas se amontoam como dá no vagão e chega se ao ponto de uma se sentar no colo de outra, mesmo sendo desconhecidos.

Macacos vagam de um lado para o outro pelas plataformas, trilhos, e alambrados.

Um problema verificado é que não há nenhum sistema de informação dentro do trem que te fale em qual cidade ou estação se está parando e, pelo menos no Rajastão, as estações são todas muito parecidas, bem como as cidades (nas áreas das estações). Então você tem que ficar esperto para não descer num local antes ou depois do desejado. Chegamos a fazer isto em uma viagem, mas conseguimos retornar ao vagão.

Enfim, depois de algumas horas de sono, estávamos em Jaipur, “prontos” para enfrentar os 44 graus do Deserto de Thar. Não tivemos problemas em nos localizar e em alguns minutos estaríamos em nosso hotel. Mas tivemos uma visão chocante.

O homem mais pobre do mundo

Bom, se não é ele, pelo menos a candidatura é forte. Mendigos são comuns no Brasil, mas nada que chegue perto do que se vê na Índia. Neste lugar a mendicância não nos pareceu ser algo tão grave para ninguém, tanto que o destino de pessoas de certa casta é terminar a vida mendigando. Mas este que vimos era um jovem de uns 25 anos, de aparência saudável (não lhe faltava membros ou apresentava alguma deficiência motora). E estava nu, em um canto. Não tinha como posse sequer um trapo para se enrolar. Em Délhi chegamos a ver pessoas vestidas com panos tão rasgados que deixavam visível as genitais. Mas este estava nu.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Índia - parte 4

Risco de intoxicação

Se você for á Índia, ficar lá por 10 dias, se alimentar nas vendinhas e restaurantes simples neste período e não tiver ao menos um piriri, procure alguma empresa que desenvolve produtos farmacêuticos e relate este fato. Você pode ficar rico, pois vão querer amostras de sua flora intestinal, seu DNA com certeza será mapeado e buscarão ali alguma coisa que te tornou este Wolverine. Talvez vão querer uma pequena amostra do tecido de seu estômago ou coisa do tipo. O Lonely Planet dá uma estatística esquisita: entre 30 e 70% dos viajantes tem problemas no aparelho digestivo na primeira semana. Outro site afirma que o número é 90%. Sei lá qual é o verdadeiro. Mas descobrimos que a causa do problema está no cumprimento “Namastê”. Ele é o culpado.

O uso de papel higiênico não é muito disseminado. As pessoas normalmente se limpam jogando uma aguinha e esfregando com a mão. A mão esquerda. Este detalhe é importante. Por outro lado, para não quebrar o fluxo de energia, o indiano se alimenta levando o alimento do prato, que pode ser uma folha de jornal, com a mão até a boca. Mas usando a mão direita. Nunca se esqueça disso. Então não deveria haver nenhum problema, pois entre as duas mãos há um corpo inteiro. Mas eu descobri a falha: na hora do Namastê as duas mãos se juntam na altura do peito. Ahammmm! Tenho que voltar lá para contar isso para eles.

Brincadeiras a parte, a Índia deu amplas contribuições para a humanidade. Só para começar, lá se iniciaram as matemáticas e o zero foi inventado. Criaram o xadrez e mais um monte de coisa. Desenvolveram sozinhos seu poderio nuclear. Já ficou famosa pelos excelentes serviços de informática prestados por empresas e cidadãos. Então não precisamos botar panos quentes. Alguns textos na internet diziam algo do tipo “eles tem um conceito diferente de higiene” como se higiene fosse algo como religião, ou passível de interpretação. Esse tipo de afirmação romanceada sobre a Índia é o que mais me irrita, na verdade. O fato é que se existisse um índice internacional que medisse o nível de higiene de um povo, a Índia estaria lá nas rabeiras. Ratos são vistos passeando por todos os lados. Pombos, que são praticamente ratos voadores, não dão conta de comer a quantidade de milho que é distribuída para eles. As pessoas se sentam e se deitam no chão em qualquer lugar. O comerciante enquanto organiza a mercadoria segura o dinheiro entre os lábios. Gatos, que poderiam ajudar a controlar a população de ratos, só vi 2. Não se lava o chão dos estabelecimentos. Passa-se uma vassourinha sem vergonha de quando em vez. Não acredito que banhos sejam frequentes, embora vi afirmações de que os indianos se lavam diariamente. Quando se está em fila sente-se o cheiro de morrinha no ar. As ruas cheiram a urina e merda. É claro, pois os homens fazem necessidades fisiológicas onde a vontade bate. A coisa mais comum é ver homens e mulheres com unhas enormes. Se não todas, deixam a do mindinho, como lembrança. Duvido que se lavam roupas com grande frequência, devido ao cecê generalizado. Enfim, um horror.

É claro que, num cenário desses, a pessoa que prepara os alimentos nos restaurantes mais simples impossivelmente estará sempre com as mãos limpas ou terá alguma preocupação maior quanto a este quesito. Provavelmente deve pensar que a pimenta vai garantir a assepsia necessária.

Então ficamos um pouco paranoicos. Nossos planos não incluíam disenterias. Em Jaipur, fazíamos apenas uma refeição decente por dia. Funcionava assim: acordávamos, comíamos uns biscoitinhos ou bananas. Lá pelas 14h, andávamos uns 3 quilômetros e chegávamos a um Pizza Hutt. Comíamos como leões. Voltávamos para casa. Se desse fome outra vez, mais biscoitinhos. Andávamos sempre com o frasco de álcool em gel. Comprávamos sempre água mineral, que eu fazia questão de garantir a potabilidade usando comprimidos de compostos de cloro. Mcdonalds, que eu não frequento porque acho os sanduiches o máximo em termos de ausência de sabor (tudo bem, tenho um pouco de aversão a símbolos dos Estados Unidos também) passou a fazer parte das opções. Decidimos que se o mundo ficar dividido entre a prepotência dos EUA e a porcaria dos indianos, Deus Salve a América.

Acabou dando certo. Não tivemos nenhum problema de saúde causado pela alimentação.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Índia - parte 3

Fila Indiana

Acabei de descobrir que o termo “fila indiana” não tem nada a ver com o tipo de fila que se pratica na Índia. Uma hipótese faz menção à suposta forma com que Índios norte-americanos se deslocavam nas florestas quando estavam em guerra. Cada indivíduo pisaria exatamente sobre a pegada do colega da frente e o último tentava apagar os rastros. Na pior das hipóteses o inimigo não teria como saber de quantos se tratavam.

Acostumadas a superlotações, desde cedo as pessoas aprendem que qualquer espaço vazio pode ser ocupado. Então, quando entrar em uma fila na Índia, saiba que você será encoxado desde o primeiro instante. É por isto que é comum haver fila para homens e mulheres separadas. Mas não é tudo. Boa parte das pessoas simplesmente não respeitam qualquer tipo de fila. Furam na cara dura. Vão chegando, fazem uma jogada com o ombro e se colocam na sua frente. Coisa que em boa parte do mundo resultaria em briga. A fila pode estar curta, por exemplo, 7 pessoas passando por um pórtico de detecção de metal. Coisa de 1 minuto. Mesmo assim o tempo todo chegam os folgados furando. Aí eu pensava: “o cara deve estar com pressa”. Que nada. Depois de passar o elemento sai andando na maior vagareza.

Macacos

Os macacos, assim como as vacas e um sem número de coisas são sagrados na Índia. Logo os indianos deveriam ser as pessoas mais abençoadas do universo, pois os bichos estão por toda parte. Nas estações de trens no meio de Délhi (mais de 10 milhões de habitantes), lá estão eles. Chegam a ser perigosos. Quase todos nunca visitaram uma floresta. Estão há várias gerações na cidade, em contato com as pessoas. Se estão com fome, podem atacar uma pessoa que carrega distraidamente uma fruta. Em certos lugares pode ser perigoso uma criança andar pelo quintal comendo uma fruta. Vimos macacos em sacadas de apartamentos no quarto ou quinto andar, pulando de uma para outra. De outra feita, um grupo pulava entre muros, árvores o teto de um carro estacionado. Um filhote se exercitava puxando sua antena.



segunda-feira, 11 de junho de 2012

Índia - parte 2

Busca por passagens – Estações 

Dias antes de chegar ao país ainda não tínhamos nem um esboço de roteiro. Por dois motivos, o primeiro era que queríamos evitar longos deslocamentos, e o outro era previsão do tempo para Delhi e cidades mais próximas. Lugares que nos interessavam prometiam 46 graus de temperatura. Então fomos adiando esta tarefa. Mas quando chegamos, decidimos fazer o triângulo Délhi – Jaipur – Agra. Felizmente as previsões meteorológicas não se concretizaram e o máximo que pegamos foi 44 graus. Moleza! 

No primeiro dia em Délhi (assim chamaremos o conjunto Délhi e Nova Délhi) saímos a procura de bilhetes de trem. Isso deveria ser fácil, mas não se deve esperar facilidades na Índia. Chegamos à imensa estação que estava lotada. A todo momento apareciam pessoas muito educadas tentando nos dar “aquela” ajuda. Quando dizíamos que procurávamos o escritório para compra de bilhetes, nos diziam que estava fechado mas que havia outro em tal lugar. Este golpe é o mais comum e era óbvio que o tal lugar era uma agência particular. Depois de zanzarmos por horas pelas plataformas, nos desviando a todo momento de golpistas, pedintes, homens santos seminus e centenas de pessoas “comuns” deitadas pra todo lado, conseguimos o que queríamos: passagens para Jaipur. Me assusta um país com tamanha fama no uso das informáticas não disponibilizar tal serviço pela internet. Um progresso pelo menos foi visto e deve ser registrado: há placas pela estação dizendo que é proibido escarrar. 


Mas susto mesmo tomamos quando andávamos por uma das plataformas nos desviando dos dorminhocos. Um grupo de três homens escornados batiam papo naturalmente. Mas estes homens vestiam uma espécie de uniforme, composto por calças e blusões brancos (encardidos) bem largos, cinturão e turbante azul e, pasme: espadas e escudos! Sim. Espadas de verdade! Não queria acreditar naquilo e até supomos que pudessem ser um grupo de atores, mas até agora estou convencido de que eram algum tipo de soldado de alguma região do país. Na Índia cerca de 50 milhões de pessoas ainda vivem em organizações tribais. Se alguém souber algo sobre este assunto, por favor comente. 

Neste dia soubemos que qualquer coisa que tentássemos fazer que dependesse de deslocamento seria cansativo, no mínimo. A multidão está para todo lado, sempre presente. A todo momento te oferecem “serviços”, bugigangas, mendigos te puxam pedindo esmolas, fazendo movimentos com a mão direita simulando o ato de levar comida à boca. Na Índia a grande maioria das pessoas ainda come com a mão. Condutores de riquixás e tuk-tuks não se contentam em berrar ao seu ouvido e fecham sua passagem para tentar força-lo a usar o serviço. Assim, a menor distância entre dois pontos nunca é uma reta. 

O lado bom de se caminhar pelas ruas é que se pode comprar pepinos já descascados, que as pessoas comem com se fossem maçãs. 

O metrô e os soldados 

O metro em Délhi é limpo, abrangente e além de tudo, funciona. O chato é que, devido ao constante risco de atos terroristas (o país disputa parte da Caxemira com o Paquistão e há grupos insurgentes que poderiam se animar a explodir algum trem em movimento), toda vez que se adentra em uma estação é necessário passar por revista e os pertences são inspecionados em máquinas de raio-X. Além disso, sempre há dezenas e ás vezes centenas de soldados armados com fuzis, metralhadoras e pistolas pra todo lado. Em algumas estações há barricadas de sacos de areia.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Índia - parte 1

Um pouco da História 

Quando a Índia se tornou independente dos ingleses em 1947, sua população provavelmente era mais do que 10 vezes maior que a da metrópole. Os ingleses, com apenas 100.000 soldados dominavam uma população de 300 milhões de indianos. Como isso foi possível? Aquele povo já chegara a dominar cerca de 30% da economia mundial, séculos atrás. A conclusão que cheguei é que, apesar de contar com mais de 9 mil anos de assentamentos permanentes e civilizações terem se formado naquela região há mais de 5 mil anos, a Índia mesmo, como uma nação, só passou a existir a partir de sua independência em 1947. 

Nos mais de 5 mil anos de civilizações no vale do Rio Indus, milhares de organizações, entre reinos, sultanatos, impérios ou o que quer que seja dominou uma parte ou a totalidade do território. 

Algo que é recorrente a todas elas é o fato de os líderes quase sempre gastarem os parcos recursos de suas épocas para o seu luxo e prazer, mantendo dezenas a centenas de mulheres concubinas (algumas lendas relatam milhares), palácios de luxo impensável, mausoléus faraônicos, roupas com tanto ouro que o usuário não conseguia se manter em pé, rinhas onde elefantes e seus ginetes se digladiavam até a morte, dentre outras. Isso tudo, é claro, construído e mantido pela exploração de toda uma população, que apesar de grande quase sempre foi miserável. Talvez este seja um dos motivos de qualquer país europeu que quis conseguiu dominar uma parte da região. 

Ao longo dos milênios vários impérios estiveram por aqui. Alguns de fora (árabe, mongol) e outros caseiros. Nos século XVI, portugueses e holandeses (sempre os primeiros) fizeram suas proezas, mas em 1757 a Cia. Inglesa das Índias Orientais começou a dominar a área, reino por reino, como quem não quer nada. Em 1849, após vencer uma grande rebelião a Inglaterra teve que “estatizar” oficialmente a dominação e integrou todo o território, que na época contava também com o Paquistão e Bangladesh, ao Império Britânico como colônia. Houve aqui muitos grupos nativos que aplaudiram. Principalmente porque não viam saída rumo ao progresso para uma sociedade com organização tão caótica. Durante a dominação eles deviam se sentir mesmo meio ingleses. Tropas indianas lutando como exército britânico fizeram bonito nas duas grandes guerras mundiais. 

Gandhi, que estudou direito em Londres tinha certeza de que gozava dos mesmos direitos de um ser nascido na Grã-Bretanha, até sofrer o mesmo que os negros sofriam quando esteve na África do Sul. Ele, como os nativos, era um “cidadão” do Império Britânico NÃO INGLÊS, o que fazia toda diferença. Na África do sul liderou um movimento de desobediência civil baseado fortemente na não violência, pelos direitos dos indianos que viviam ali. Em 1915, retorna a Índia e conduz um movimento rumo à independência baseado na não violência. 

Em 1947 a Índia se torna independente. Mas o Paquistão (Oriental e Ocidental) passa a existir como país também. Esta divisão foi muito turbulenta, provocando uma troca de populações com o deslocamento de mais de 10 milhões de pessoas. Cerca de 1 milhão morreram em conflitos entre muçulmanos e hindus. 

A divisão das duas nações já gerou várias guerras e motivou a marcha dos dois países rumo a investimentos militares proibitivos, haja visto suas condições socioeconômicas. Numa dessas guerras o Paquistão Oriental, apoiado pela Índia obteve sua independência com o nome de Bangladesh. 

Em 1974 a Índia já havia conseguido detonar seu primeiro artefato nuclear, mas foi em 1998 que ela se tornou realmente um Estado Nuclear ao realizar uma série de testes bem sucedidos com bombas de grande poder destrutivo. Semanas depois o Paquistão também realizou testes nucleares bem sucedidos e obteve o mesmo status do vizinho. Hoje os dois países disputam a região da Caxemira. É o principal ponto de tensão no mundo capaz de gerar uma guerra nuclear. 

Hoje a Índia tem 1,2 bilhões de habitantes e caminha a passos largos para ultrapassar a China e se tornar a nação mais populosa do mundo. Apesar de ser a terceira maior economia mundial em paridade de poder de compra o país goza de péssimos indicadores sociais. Seu IDH é o de posição 134, ficando atrás até do Iraque. 

Chegada 

Entre o Vietnam e a Índia fizemos uma escala em Bangkok, onde passamos mais uma noite. No dia 27/04/12 partimos para Nova Délhi e no avião já pudemos ver algo do que nos esperava. De repente, um grupo de amigos e familiares fizeram uma aglomeração em um ponto das poltronas centrais. E ali brincavam, gritavam, riam, assobiavam, uma bagunça, digna de excursões escolares de turma de sétima série. 

O Aeroporto Indhira Gandhi não deixa a desejar em nada se comparado aos melhores do mundo. Espaçoso, quase todo atapetado. Num canto, vi uma mulher de burca, sentada encostada numa parede. A burca era igualzinha àquelas que vemos na TV em imagens do Afeganistão. Foi a primeira vez (até o momento a única) que vi aquilo. Um indivíduo totalmente anulado, sem direito à luz, à brisa, a ser visto e identificado como tal. Me chocou. Bem mais que na TV. Mais adiante, a emigração. O que há de novo aqui é que existe uma fila e guichês especiais para quem viajou de primeira classe. Lembremos que a Índia é a maior democracia do mundo e em uma democracia pressupõe-se que todos os indivíduos são iguais, ou pelo menos o Estado irá tratar a todos da mesma forma. Mas sempre me perguntei como teria dado certo a democracia em um lugar onde ainda existe (extra oficialmente, é verdade) o sistema de castas. Naquele momento no aeroporto temi que a resposta fosse: “não deu”. Chegamos por volta de 10 horas da noite, conseguimos nossos carimbos, sacamos alguns milhares de rupias e fomos buscar por nosso transporte. Como já havíamos sido alertados por vários meios que os taxistas em Délhi tem a pouco honesta prática de no meio do caminho tentar recombinar o preço acertado antes da viagem, alegando que o hotel é mais longe do que era quando foi combinado, procuramos o guichê dos taxis pré-pagos, que apesar de serem mais caros, nos dariam a garantia de chegar ao local certo pelo valor combinado. Preferimos pagar mais caro a sermos enganados. No guichê nos indicaram o número do taxi que deveríamos pegar do lado de fora. Entramos em um Ambassador preto e amarelo, com um motorista de dentes escuros, bigode embaraçado, um capuz tipo de soldador na cabeça e fomos. Depois de uns 5 minutos ele vira pra mim e grita em Hindi qualquer coisa. Depois pega o endereço no meu caderno. Grita de novo. Me passa seu celular para eu ligar para o hotel para nos dar referência. Eu falo para ele que não ia ligar, que ele ligasse. Ele supostamente liga, pergunta, responde, pergunta, responde. Fica com cara de bravo. Vira a direita, depois retorna, anda mais um pouco e para em um hotel com o nome ND Aerocity Inn. O nosso era ND Aerocity Hotel. Falamos que não era aquele. Ele diz que para nos levar ao nosso hotel teremos que pagar mais, porque é mais longe. Aí eu falo para ele nos levar de volta ao aeroporto, pois quem informou o preço baseado no endereço que mostramos foi a própria empresa. Ele insiste e nós insistimos também. Ele fecha a cara feia, liga o carro. Anda uns 80 metros e estamos no nosso hotel. Saímos do carro bravos. O gerente do hotel nos recebeu já perguntando: “bad taxi driver?” e nós relatamos a tentativa de golpe. Ele balançou a cabeça um pouco envergonhado.