domingo, 6 de janeiro de 2013

Israel e Palestina - parte 4

Belém

Pegamos um coletivo em Jerusalém que nos deixou, em 20 minutos dentro da cidade palestina de Belém, ou Betlehem. Ao longo de quase todo o caminho se avista o vergonhoso muro que Israel instalou para se separar dos territórios palestinos. Se por um lado os israelenses justificam que o muro praticamente cessou os ataques terroristas palestinos, é bem claro também que a Autoridade Palestina vem conseguindo bastante sucesso em manter suas áreas relativamente em paz, de modo que nunca saberemos se o muro teve ou não essa eficiência toda...

Nosso plano era visitar a Igreja da Natividade e voltar. Mas não foi bem assim...

Igreja da Natividade


No local onde Jesus teria nascido, os fiéis ergueram uma imponente igreja, destacando onde supostamente seria o local exato do nascimento. Fomos lá, enfrentamos a fila, tiramos algumas fotos, rezamos um pouco, prestamos o nosso respeito, mas nossas cabeças fervilhavam mesmo era com a situação dos palestinos...

Betlehem Peace Center

Em frente à Igreja da Natividade tem um painel contando a história recente da palestina. Lá estava escrito que se alguém quisesse mais informações ou mesmo visitar um campo de refugiados deveria se dirigir ao Betlehem Peace Center, que fica na mesma praça que a igreja.

O local é interessante, bem montado e com funcionários competentes. Batemos um bom papo com as funcionárias, e aprendemos a chegar a Aida. Era simples: apenas um táxi de uns 10 minutos e isto, teoricamente não nos traria problemas com Israel.

Campo de Refugiados de Aida

Entramos no campo, pagamos o taxista e o dispensamos. Na entrada, pintado à mão vê-se um enorme Welcome to Aida Camp”. Aí aprendemos que o campo já tinha a estrutura de um bairro pobre em uma grande cidade brasileira. É que esperávamos chegar a um lugar cheio de tendas, sem estrutura nenhuma, com pessoas chorando para todos os lados. Mas Aida já existe há mais de 60 anos, desde quando os palestinos foram expulsos de suas casas na criação do estado de Israel. Não é de se estranhar que o campo tenha uma estrutura de bairro. As pessoas levam suas vidas, alguns tem carros, há escolas, etc.


Mas existe o muro, que não deixa ninguém se esquecer que os vizinhos são os inimigos. Entramos no campo e depois de andarmos uns 200 metros, vimos que um veículo militar havia parado no portão por onde entramos e 4 soldados haviam descido. Pensamos que eram israelenses e nós teríamos problemas na saída. Ficamos com medo. Mais a diante, um grupo seguia um guia. Tentamos nos infiltrar. Era uma equipe da National Geograpfic que provavelmente faria alguma publicação a respeito.


Não nos infiltramos, mas o guia nos orientou sobre onde irmos e de quebra nos disse que os soldados eram palestinos e não precisávamos nos preocupar. Caminhamos para lá e para cá. De uma escola em final de horário de aulas uma turma de crianças saía e foram atrás da gente. Falamos sobre o Brasil, sobre futebol, um garoto nos disse que os israelenses eram loucos, nos mostraram uns filhotes de cachorro em um lote, tiramos fotos. Crianças como em qualquer lugar do mundo. 


Atravessamos o campo e passamos pelos soldados que uma hora atrás pensávamos ser israelenses. Nos cumprimentaram, passamos, tiramos muitas fotos dos grafites do lado interno do muro. Voltamos e ao passarmos pelos soldados, um civil que estava no meio nos convidou para um chá. Por que não? Ficamos em sua casa por 2 horas. Seu irmão é noivo de uma brasileira de Ubatuba, que achamos no facebook lá mesmo e batemos um papo. Nosso anfitrião, que nasceu em Aida, estava desempregado, mas é músico e se formou em hotelaria. Aquele encontro nos ensinou muito sobre a vida em um país em estado permanente de guerra. O cara perdeu o pai na última intifada e não conseguia fazer planos mais longos que uma semana.


Saímos e ao passarmos pelos soldados trocamos uma prosa. Enquanto conversávamos, um grupo de crianças chega, se aproxima, troca umas palavras com os soldados, tenta apertar o gatilho da metralhadora (que está travada), toma uns xingos e se vai. Os soldados são jovens de vinte e poucos anos, gozadores, mulherengos. Logo estamos falando em mulheres, se algum queria se casar com mais de uma. Eu digo que estava na Palestina para buscar minhas outras 3, pois lá se pode casar com 4. O nosso anfitrião fala que eu não dou conta nem de uma. Eu viro para um dos soldados e digo: “por favor, dê uns tiros nele para mim”. O cara finge que destrava a arma, aponta e todos rimos. Renilza horroriza com um dos garotos que apesar de ser casado e com um filho é o garanhão da área, cheio de namoradas. Mas ele é cara de pau e não está nem aí... por fim a gente se despede e vai embora. Paramos em um posto de controle israelense, mostramos documentos, mas somos liberados.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Israel e Palestina - parte 3

Jerusalém

A história de Jerusalém é mais complexa que a de vários países juntos. Não só por ser uma das cidades mais antigas do mundo, com mais de 6.000 anos, mas, principalmente, por ser uma cidade sagrada tanto para judeus, cristãos e muçulmanos. Contrariando inúmeras resoluções da ONU e violando em vários pontos convenções de direito internacional, Israel domina hoje a cidade e a tem como sua capital, embora nenhum país reconheça esta situação e todas as embaixadas estejam em Tel Aviv.

A cidade antiga é dividida em 4 partes: Quarteirão Católico, Judeu, Armênio e Árabe. Caminhando pelas ruelas se pode perceber facilmente quando se sai de uma área e entra em outra. Os lugares sagrados mais importantes são o Muro das Lamentações, a Igreja do Santo Sepulcro, a Esplanada das Mesquitas, a Cúpula da Rocha e a Mesquita de Al-Aqsa. A Via Dolorosa, caminho seguido por Jesus enquanto era espancado está toda sinalizada e o fiel não tem nenhuma dificuldade em percorrê-la. Dificilmente um visitante passará um dia na cidade sem pegar uma procissão de fiéis de qualquer país. Mais fácil ainda é comprar todo tipo de amuleto religioso, camisetas ou tomar um chá em um dos incontáveis estabelecimentos da cidade, que às vezes parece mais um grande mercado.


Igreja do Santo Sepulcro

Trata-se de uma igreja, hoje sob administração dos Gregos-Ortodoxos, Armênios-Ortodoxos e Católicos Romanos onde se acredita que Jesus foi crucificado, sepultado e ressuscitou. Acredita quem quiser, mas muita gente quer. O fato é que, em 326 d.C. Helena, a mãe do imperador romano Constantino visitou a cidade e identificou o local da crucificação e a tumba de Jesus. Nada se sabe sobre as qualidades da senhora como arqueóloga, mas o fato é que o que ela disse colou e o imperador então mandou construir a igreja no local. E o povo vai lá com toda a fé. Logo na entrada, uma pedra no formato de uma tampa de caixa fúnebre, que acreditam ser da de Jesus é esfregada e beijada por centenas, talvez milhares de fiéis todos os dias. E olha que a pedra foi encontrada vários séculos após a crucificação, em um local onde milhares de pessoas teriam sido sepultadas.


Visitamos a igreja e não temos como negar a enorme carga emocional que povoa o prédio. Mas às vezes dava um certo asco ver tanto fanatismo em torno de objetos e locais que muito provavelmente não são o que os fiéis acreditam que sejam. Além do mais, não há nada que diz que uma oração ali tenha mais valor que outra rezada com fé em qualquer lugar do universo. Há alguns anos o pau quebrou entre dois grupos de fiéis de diferentes crenças que administram a igreja porque um estaria varrendo o local que era área definida para o outro grupo varrer. Atualmente a prefeitura de Jerusalém tem ameaçado fechar as portas da igreja se a administração não pagar as contas de água atrasadas de vários anos acumulados.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Israel e Palestina - parte 2

Um pouco de história

A história da região chamada Palestina é longa e movimentada. Incontáveis guerras e massacres moldaram os diversos povos que viveram e vivem ali. Estas poucas linhas resumirão apenas a situação das últimas décadas.

Com a derrota da Turquia na Primeira Guerra Mundial, suas possessões na região da Palestina ficam divididas entre França e Reino Unido. O primeiro fica com o Líbano e Síria. A Palestina e outras áreas ficam com o Reino Unido.

Ao fim da Segunda Guerra, o Reino Unido, enfraquecido pelo conflito e cedendo à pressão de judeus e árabes, partes já conflitantes naquele momento, entrega a Palestina à recém criada ONU, que em uma resolução de novembro 1947, em um momento de extrema estupides, decide repartir a Palestina em dois Estados, um árabe e outro judeu, como se fosse uma fazenda despovoada entregue a dois donos. Os judeus, que não tinham nada, toparam. Os árabes não aceitaram, pois apesar de serem maioria esmagadora, ficariam com uma área menor e menos fértil. O fato de os judeus terem sido massacrados pelos nazistas havia favorecido esta decisão. Todos (ou quase) queriam fazer uma gracinha para eles.

Os judeus botaram a mão na massa e menos de 6 meses depois da resolução, em meio a uma guerra civil que já estava em curso, declararam criado o Estado de Israel em 14 de maio de 1948. No dia seguinte, Egito, Iraque, Líbano, Síria, Transjordânia e as forças palestinas declaram guerra ao recém criado país. 

Contra todas as expectativas, Israel vence de forma acachapante o conflito. Analisando os detalhes do confronto pode-se notar que esta vitória não foi tão surpreendente. Os árabes, além de estarem muito mal treinados e parcamente equipados cometeram diversas trapalhadas facilitando muito a vitória Israelense. Desde então Israel passa a expulsar os árabes da Palestina usando todos os pretextos possíveis (e às vezes sem qualquer desculpa), o que gerou um número de refugiados de mais de 4 milhões de palestinos vivendo em outros países.

Aos poucos o conflito se adequou à realidade da Guerra Fria, com Israel apoiado por Estados Unidos e os árabes pela extinta URSS. Outros conflitos viriam, com alguns culminando em guerras, todas elas vencidas por Israel.

O fato é que nunca houve paz entre as partes desde o início do século XX. O ódio mútuo é enorme e cresce a cada dia. Além das questões militares, a relação entre os dois povos é algo digno de vergonha para toda a humanidade. Chegamos ao ponto de Israel manter um judiciário para judeus e outro para árabes. Israel frequentemente constrói assentamentos para judeus em áreas da Palestina. Quem for lá hoje verá enormes muros cercando as áreas sob controle da Autoridade Palestina, que acabam limitando drasticamente a movimentação dos árabes, frequentemente separando membros da mesma família.

Os palestinos, por sua vez, volta e meia promoviam ataques suicidas e hoje, algumas milícias possuem foguetes rudimentares que não raro fazem algum estrago em Israel. Os israelenses mantem milhares de presos políticos palestinos, inclusive crianças. Não é raro soldados judeus matarem crianças com tiros depois de essas atirarem pedras em postos de controles.

Apesar da discrepância entre as forças militares dos dois povos, nada se pode afirmar sobre o futuro próximo da região. Desde a primeira intifada em 1987 (movimento popular espontâneo onde palestinos lutam contra israelenses fortemente armados usando apenas paus e pedras) a opinião pública mundial começou a tombar para o lado palestino. Se você entrar em qualquer fórum de discussão hoje na internet verá que a grande maioria dos comentários são contrários a Israel. Um reflexo disso foi a aprovação na ONU da aceitação da Palestina como Estado-não membro (mesmo status do Vaticano) com uma votação de 138 países a favor e apenas 9 contrários.

Israel e Palestina - parte 1

Fronteira Jordânia Israel

Chegamos na fronteira, do lado da Jordânia, e um grupo de soldados que batiam papo muito à vontade nos pediu os passaportes, fizeram algumas perguntas e nos mandaram seguir. Entregamos os passaportes para os agentes, pagamos o visto de saída, esperamos um pouco e dentro do ônibus que nos levaria até o lado israelense. Eles retém nossos documentos para evitarem que tentemos seguir a pé para Israel, coisa que pode custar a vida do sujeito, ao se expor à ótima pontaria dos israelenses.

Após o ônibus andar por alguns minutos, já em área israelense, somos parados por soldados. Estes, armados com fuzis com visão noturna, usam uniformes gastos. Demonstram estar sempre atentos. Sempre usam colete mochila (provavelmente com munição, água...). Ou seja: não é preciso ser especialista para ver que um exército, além de ser mais bem equipado, é muito mais bem treinado do que o do vizinho. Andamos mais um pouco e estamos na imigração israelense. Raio X, duplas checagens de documentos, soldados (um deles, não entendemos a razão, a paisana, mas com um fuzil enorme também)...

Somos atendidos ao mesmo tempo, Renilza e eu um ao lado do outro. O cara vê o visto e carimbos do Iran, libera a entrada da Renilza, mas comenta algo com o meu agente e a palavra “Iran” é perfeitamente distinguível. E o meu carimbo não sai. O cara me pergunta por que ficamos 18 dias lá, faz cara feia e me manda esperar. Duas vezes me chama e pergunta onde pretendemos ir. O plano era falar que íamos apenas em cidades israelenses, mas eu vacilei e disse que ia a Belém. “Mas Belém é Palestina!”. Fiz cara de que nem sabia e disse que, como católico era meu plano ir lá.

Enfim, após pouco mais de uma hora de tensão, temos nossa entrada liberada. Até o momento foi a situação mais chata em imigrações. Mas depois conheci um brasileiro, evangélico, que nos disse que foi levado para uma sala de interrogatórios e a soldadesca já chegou batendo na mesa: “onde é que tá a cocaína?!”. Outro, um português, disse que entre esperas e interrogatórios, foram 7 horas. E outro relato, de uma jovem brasileira, negra, que viajava sozinha, e teve até que tirar toda a roupa para ser revistada. Até que tivemos sorte.

Pegamos um táxi coletivo e no início da noite já estávamos no albergue dentro dos muros sagradíssimos de Jerusalém.

Jordânia - parte 2

Senhor Shauki, o taxista

Esse cara nos levou até a fronteira com Israel, mas no caminho paramos no Mar Morto e em outros lugares interessantes. Com um bom inglês, este filho de palestinos nos colocou por dentro de tudo sobre o país, cultura, família real e história. Jogou futebol, vôlei, foi corredor, foi soldado, e tem 8 filhos. Contou sobre sua família. Teve os três primeiros filhos em escadinha (hoje com 18, 17 e 16 anos ou algo assim), deu um intervalo de uns 4 anos e fez mais um lance de escada (12, 10 e 9). Deu um espaço de uns 7 anos e vieram gêmeos.

Perguntamos se queria ter mais esposas (quase todas nossas conversas com muçulmanos chegavam neste ponto) e ele disse que não, que era muito feliz, etc. Tinha planos bastante consistentes para colocar os filhos e filhas na faculdade e para ajeitar bons casamentos para eles. Além de tudo ele era muito engraçado e inteligente, sempre com um bom papo. Ele nos disse como seríamos tratados pelos israelenses por sermos parecidos com árabes (e acertou na mosca) e nos adiantou como seriam as coisas para a gente do outro lado. Já chegando na fronteira com Israel, dissemos a ele que tínhamos visitado o Iran. Ele disse: “ uhmmmm, isso pode dificultar. Há quantos anos vocês estiveram lá?” “Há 3 dias”. “O QUE?!!! Vocês não vão conseguir! 0% de chance. Hoje a noite nos encontraremos para jantar em Amman e vocês me contam” (nisso ele errou).

Mar Morto

De Amman até o Mar Morto paramos em uma Igreja de São Jorge, em alguns mirantes, além de uma loja de artesanatos e produtos do Mar Morto (cremes em geral). Todos eles legais, mas sem grande importância para a gente. Já a parada no Monte Nebo foi legal. De lá se tem um panorama da Terra Santa, com Jericó e, dependendo da visibilidade, até Jerusalém. Moisés teria avistado dali a terra prometida. Mais do que isto: para judeus e cristãos, ele teria sido enterrado ali por ninguém menos que Deus! E mais: até a arca da aliança pode estar ali, segundo uma passagem da bíblia. É tão importante que Bin Laden quis bombardear a área.

De qualquer forma a vista é bastante bonita, o local é bem arrumadinho, já que volta e meia pessoas importantes batem ponto lá. Tem algumas ruínas em escavação e alguns monumentos recentes.

Mas os objetivos principais do dia eram boiar no Mar Morto e entrar em Israel. Chegamos no Mar Morto e entramos por um dos clubes que o acessam. Você pode até tentar bolar um esquema para acessá-lo por sua conta, mas aprendi que não compensa.

Mas o que que o Mar Morto tem de tão especial? Pois bem, em termos de tamanho, não passa de uma lagoa, que, se formos tentar encontra-la em um mapa mundi pequeno possivelmente ele será apenas um ponto posto ali devido à importância histórica. Mas o Mar Morto além de ser a maior depressão do planeta fora dos oceanos, estando a mais de 400 metros abaixo do nível médio dos mares, é também a porção de água natural mais salgada da Terra, com uma concentração salina cerca de 10 vezes maior que a dos oceanos. Isto faz com que seja muito fácil para o banhista flutuar em sua superfície.

Aliás, para alguém se afogar no Mar Morto, só amarrando pedras ou coisa assim em seu corpo. É por isso que quase todos os turistas que vão lá tiram a clássica foto, deitados sobre a água, lendo um jornal ou revista. Dá até para tirar uma soneca. Realmente é uma brincadeira legal. Mas tem os seus limitadores. O otário aqui já foi entrando na água como se entra em uma lagoa qualquer, em um mergulho. Queria ver qual era o efeito do empuxo sob quem tenta mergulhar. Mas não usava nenhuma proteção para os olhos. Que idiotice! Devido à salinidade, meus olhos arderam tanto que tive que sair e lavar os olhos com nossa água mineral.

Mas não é só isto: qualquer feridinha que você tiver pelo corpo vai doer como se fosse uma dentada de tubarão. Mas não se preocupe: nenhum peixe sobrevive ali. Bem, como estávamos há mais de um mês entre locais de climas semi-áridos e desérticos, meu nariz estava todo ferido por dentro. Ou seja, meus primeiros momentos ali foram só sofrimento. Depois consegui ignorar parte das dores. É bom não de barbear ou se depilar nos dias anteriores.


Pois bem. Flutuamos até cansar daquilo e almoçamos no restaurante do clube. Os jordanianos tem uma receita de carneiro com quiabo muito gostosa, mas é claro, inferior ao prato mais delicioso do mundo: o Frango Com Quiabo. E quando eu voltava do banheiro encontrei Renilza em um debate acalorado com o Sr. Shawki, o taxista, sobre qual receita era a melhor. Entrei para ajudar Pretinha. O clima estava tenso: o Sr. Shawki atacou assim: “eu entendo porque vocês preferem o frango: porque vocês são uns franguinhos”! E nós contra-atacamos: “e vocês são umas ovelhinhas que ficam assim: béééééé, bééééé´!”. E infelizmente não conseguimos convencê-lo do que é certo. Esses palestinos são muito teimosos, como o planeta inteiro já sabe!

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Jordânia - parte 1

A Jordânia, ou Reino Hachemita da Jordânia é famosa no ocidente como um país seguro para o turista e por Petra, atração mundialmente famosa (já esteve até em novela da Globo). Mas o acesso ao Mar Vermelho, ótimo lugar para mergulhar, o deserto Wadi Rum e o curiosíssimo Mar Morto, fazem do país um destino onde a satisfação é garantida.

Chegamos do Iran, pagamos nosso visto no desembarque e pouco mais de uma hora após a aterrissagem já estávamos instalados em um hotel barato (e ruim) na capital Amman.

Um pouco de História

A história desta região remonta deste os tempos pré-bíblicos e vários povos já dominaram este torrão: amonitas, amorreus, moabitas, edomitas, nabateus, egípcios, israelitas, assírios, babilônios, persas, gregos, romanos, muçulmanos, cruzados, cristãos, turcos otomanos e, por fim, os britânicos.

No fim da Primeira Guerra Mundial, o território que agora compreende Israel, a Jordânia, a Cisjordânia, a Faixa de Gaza e Jerusalém foi concedido ao Reino Unido como o Mandato Britânico da Palestina. Em 1922, a Grã-Bretanha dividiu o controle estabelecendo o semiautônomo Emirado da Transjordânia, regido pelo príncipe hachemita Abdullah, enquanto continuou a administração do restante da Palestina. Em 25 de maio de 1946, o país tornou-se independente como Reino Hachemita da Transjordânia.

A Jordânia participou na Guerra de 1967 entre Israel e os Estados árabes de Síria, Egito e Iraque. Durante a guerra, Israel ganhou o controle da Cisjordânia e toda Jerusalém. Em 1988, a Jordânia renunciou todas as reivindicações sobre a Cisjordânia, mas reteve um papel administrativo sob uma colonização final, e o tratado com Israel permitiu a continuidade do papel jordaniano nos lugares sagrados dos muçulmanos em Jerusalém. Uma jogada arriscada, já que poderia ter atraído o ódio de vizinhos árabes, mas que deu certo no sentido de manter a sua paz.

A guerra de 1967 trouxe um dramático aumento do número de palestinos vivendo na Jordânia e hoje eles são maioria. Apesar de grupos armados de origem palestina terem infernizado o lugar na década de 70, os cidadãos palestinos e seus descendentes tem uma boa relação com os beduínos, como se denominam os habitantes de origem jordaniana, já que todos são unidos pelo ódio contra Israel.

A monarquia tem conseguido manter o país em paz no meio de um dos cenários mais propícios a guerras do planeta. Apesar de não serem ricos como os vizinhos em recursos naturais, principalmente petróleo, o turismo, as minas de fertilizantes, a agricultura e uma ou outra indústria tem mantido seus habitantes satisfeitos e, nós não acreditamos que a chamada Primavera Árabe terá algum efeito ali. Apesar de a monarquia manter o domínio do país, existe um clima de razoável liberdade civil.

Porém, por fazer divisa com Israel, que é inimigo de todos os países da região (mesmo que relações diplomáticas digam o contrário em alguns casos) e por abrigar milhões de palestinos, ninguém pode afirmar até quando a Jordânia conseguirá se manter em paz. Não esquecer do resto da vizinhança que de santos não tem nada: Síria, Arábia Saudita, Iraque...

Amman

A Capital Jordaniana não é lá grandes coisas para o turista. Eles tem um teatro romano antigo com um pequeno museu anexo que é bonitinho. Como era perto, fomos lá. Mas não vimos nada que possamos escrever “nossa, como esse lugar é interessante!”. Eles tem também a Citadela. Mas, após visitarmos o teatro romano, decidimos que não iríamos à citadela, pois nos consumiria um dia e duvidamos que veríamos algo pelo menos próximo do que vimos na Grécia ou Turquia. O que nós curtimos muito em Amman foi a comida.


Mas fechamos com um motorista de táxi uma corrida que seria basicamente um dia de passeio misturado com nossa viagem para Israel.

Decidimos ir para Israel o quanto antes e retornar à Jordânia para continuarmos nossa viagem. Como tínhamos visitado o Iran, não era pequena a possibilidade de barrarem nossa entrada e queríamos decidir isto logo. Aliás, o fato de termos ido ao Iran nos obrigou a planejarmos nossa entrada em Israel por terra, pois caso negassem, era só dar meia volta. Se chegássemos por Tel Aviv, de avião, e não fôssemos aceitos, seria um rolo danado e provavelmente nos mandariam para o Brasil.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Iran - parte 10

Teerã

Reservamos uns cinco dias para Teerã, mas já no primeiro decidimos encurtar o período. A cidade tem vários museus, mas os que nos interessavam estavam parcial ou totalmente fechados. E, decidimos que 18 dias já tinha sido o bastante para o Iran. Por mais bonitas que sejam, já estávamos cansados de entrar em mesquitas e a cidade é bastante barulhenta. É claro que tem um potencial imenso a ser explorado e, se fosse outra época, poderíamos curtir os museus e fazer um bom passeio de teleférico nas montanhas que limitam a cidade, que tem as partes mais altas cobertas de neve no inverno. Mas como não era o caso. Ficamos apenas dois dias na cidade.

Pessoas

O Iran pode ser o herdeiro do patrimônio persa, ter cidades históricas completamente originais, ter estações de esqui, ter suas mesquitas, praças, etc., mas o que mais nos marcou foi a hospitalidade. Existe uma marca naquele povo que é muito interessante. Eles não são calorosos, mas são muito hospitaleiros. As pessoas se oferecem para ajudar sem a menor intenção de receber algo em troca. Nunca nos sentimos tão seguros quanto no período em que estivemos no Iran. As pessoas nos passavam a impressão que se sentiam responsáveis por nós, sem serem pegajosas.

Perguntamos ao Ramin se isto acontecia só com turistas e ele disse que não. Nos deu o exemplo de que uma vez, quando ele estava perdido em Teerã, um cara numa moto parou e se ofereceu para ajudá-lo. O cara o levou na garupa por 40 minutos até encontrarem o local que ele procurava.

A gente volta e meia ganhava alguma coisa: pedimos para um padeiro deixar a gente tirar uma foto dele fazendo pão e ele nos deu um pão. Um cara com uma banca de souvenires, nos deu um cartão postal porque gostou da gente. Um outro pagou nossas passagens em um coletivo, um taxista que teve que andar mais do que combinamos porque o endereço do hotel estava errado não aceitou nossa gorjeta. Essas demonstrações de amabilidade nos conquistou desde o início.

O país tem um potencial turístico enorme a ser desenvolvido. Os museus podem ser melhorados e alguns tem mesmo que ser construídos. Por exemplo, não há um museu dedicado à guerra contra o Iraque. Mesmo com essas deficiências, o tratamento que recebemos colocou o Iran entre os países que mais gostamos.

Mulheres

Antes de entrarmos no país tivemos que comprar umas roupas para Renilza. Antes de saber onde está o Iran a maioria das pessoas já sabem que há restrições quanto às vestimentas femininas. As mulheres não devem expor braços, pernas e cabelo. Os homens também não podem usar regata e bermuda. O que ocorre é que, mesmo com essas restrições, algumas pessoas nos disseram que no Iran as pessoas eram livres, pois em outros países muçulmanos as mulheres eram obrigadas a tapar até o rosto. De fato, vimos apenas duas mulheres com os rostos tapados e nos disseram que eram árabes. Realmente, quando se sai do Iran para outros países muçulmanos na região pode-se notar a diferença. Na Jordânia e Egito, onde as leis não proíbem a mulher de usar roupas ocidentais, cansamos de ver mulheres, muitas vezes jovens com o corpo completamente tampado, inclusive o rosto, deixando expostos apenas os olhos.

No Iran, como em quase todo mundo as mulheres são umas danadinhas. Você pensa que por estarem com o corpo todo coberto elas não conseguem expor seus atributos? Engano total. A maioria faz uso quotidiano de maquiagem, estão com sobrancelhas sempre podadas, as jovens usam calças justas e a “blusa” comumente é justa na cintura. Como o cabelo é uma arma importante no arsenal feminino, no caso das iranianas, elas costumam fazer uns apliques para ficarem com o lenço bem volumosos. Cirurgias plásticas para redesenhar o nariz (geralmente grandes em povos de regiões desérticas) são muito comuns.

As mulheres dirigem, inclusive táxi e são maioria nas universidades, além de ocuparem uma boa parte dos postos de trabalho. Que fique claro que não somos defensores da legislação iraniana que reserva direitos diferentes para homens e mulheres. Mas dando uma voltinha pelo mundo árabe você verá situações bem piores do que a das iranianas. Na Arábia Saudita, por exemplo, as mulheres sequer podem dirigir e, caso alguma dela vá sair do país, precisa da permissão do seu “guardião”, que pode ser o pai, marido, irmão e até um filho menor de idade. Mas devido à aproximação entre Arábia Saudita e Estados Unidos, de alguma forma, poucas vezes os meios de comunicação falam sobre as violações dos direitos humanos no país saudita.